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Os Quatro Pensamentos que Transformam a Mente

408665834_d65373d6b5Pôr-se a caminho

Embora haja muitas diferenças entre as várias religiões do mundo e entre as várias escolas do Budismo, também há muita coisa em comum, e isso é muito visível quando iniciamos a viagem. Para muitos de nós, o primeiro passo no caminho espiritual, o portão de “Um Dharma”, surge quando nos damos conta de um forte anseio íntimo por uma compreensão mais profunda ou por um sentido de paz e realização que está para além das convenções superficiais e das confusões que frequentemente parecem submergir-nos.

Mas podemos perguntar-nos: como alimentar esta chama no meio da actividade e preocupações da nossa vida de todos os dias? Há alguma forma de dirigir a nossa atenção para a verdade, para a compaixão, de forma a dar sentido a todos os altos e baixos da nossa experiência? Em todas as tradições do Budismo – mas mais articuladas mais sistematicamente pelos tibetanos – há quatro poderosas reflexões transformadoras que, quando bem praticadas, colocam-nos na pista de aterragem do despertar. São chamadas as Quatro reflexões que voltam a mente para o Dharma (ou Quatro Pensamentos que transformam a Mente). Estas guiam-nos através das nossas distracções e conservam-nos orientados na direcção certa.

Os Quatro Pensamentos que Transformam a Mente

1. O Precioso Corpo Humano

A primeira destas reflexões contempla a preciosidade do nosso nascimento humano. Na vasta cosmologia dos ensinamentos do Buda há muitos planos de existência, desde os vários reinos de sofrimento aos paraísos de maravilhosos deleites e beatitude sem forma. Há inúmeros universos, incomensuráveis expansões temporais, renascimentos sem princípio.

Dentro deste rico e infinito jogo da existência, obter um nascimento enquanto ser humano, é tido como um raro e precioso acontecimento. É como se de alguma maneira tivéssemos chegado a uma fabulosa ilha do tesouro, onde, se soubermos como, todas as coisas boas estão ao nosso alcance. Sob esta forma humana temos o potencial para compreender as causas da felicidade e a liberdade de as cultivar. E há exactamente o equilíbrio certo entre dificuldade e facilidade para nos motivar a fazê-lo.

Quer acreditemos ou não em vidas passadas ou futuras ou na existência de outros reinos, mesmo assim podemos praticar esta reflexão que encaminha a nossa mente para o Dharma quando consideramos as circunstâncias da nossa situação presente. Neste momento, temos tempo, recursos e interesse suficientes para explorar o caminho do despertar, mas todas estas condições são incertas e podem mudar a qualquer momento. Em tantos lugares do mundo, as pessoas podem ter vidas pacíficas e estáveis, e de repente, algo acontece, e as suas vidas ficam viradas do avesso. Desastres naturais como inundações, incêndios, terramotos, e mesmo furacões podem ocorrer; a guerra e a violência irrompe, ou alguém sofre a experiência de súbitos sintomas de uma doença terminal. Nenhum de nós está ao abrigo de nenhuma destas condições variáveis.

Ao reflectir na existência de circunstâncias favoráveis nas nossas vidas e ao lembrar que estas nem sempre podem estar presentes, isto aumenta a energia em nós para usarmos o nosso tempo da melhor forma – tempo que só existe devido ao facto de termos um precioso nascimento humano. Conseguimos ver todas estas condições como uma dádiva e uma bênção, em vez de as tomarmos como algo adquirido e assumirmos que sempre vão permanecer assim?

Mesmo em tempos e situações desfavoráveis o nascimento humano em si mesmo proporciona oportunidades para aprofundar a nossa sabedoria e compaixão. Uma das minhas mais queridas professoras, uma mulher de Bengali chamada Dipa Ma passou por períodos de intenso sofrimento pessoal. Enquanto vivia em Burma com a família, o marido e duas das suas três crianças morreram num curto espaço de tempo, deixando-a inconsolável. Ela descreveu a sua dor como colocando-a à beira da morte. Depois de quase cinco anos de desgosto e de profunda debilitação, um amigo levou-a a um centro de meditação em Rangoon e aí começou uma viagem interior extraordinária. A profundidade do seu sofrimento tornou-se na motivação para uma prática decidida, e a sua realização era espantosa, mesmo num país de célebres mestres de meditação.

Também podemos praticar esta reflexão sobre a preciosidade da vida humana ao contemplar um dos princípios mais básicos do ensinamento budista – nomeadamente, que todas as experiências, incluindo a própria vida, não surgem por acaso, mas pela reunião de todas as causas e condições necessárias. A água congela quando está a determinada temperatura, não apenas porque desejamos que congele. Da mesma forma, as condições para obtermos uma forma humana – e sejam quais forem as nossas circunstâncias presentes – são as nossas boas acções passadas. Somos os herdeiros dos nossos actos. Esta compreensão ajuda-nos a olhar a nossa história particular, com todas as suas alegrias e dificuldades, com um respeito profundo e genuíno.

Uma das lendas que rodeia a iluminação do Buda – uma lenda encontrada noutras tradições de uma forma ou outra – esclarece nitidamente este princípio. Descreve o momento em que as forças poderosas da tentação, do desejo e da dúvida assaltaram a mente do Buda na véspera do despertar. Diz-se que aquele que se tornaria o Buda tocou a terra, tomando-a como testemunha do seu direito de estar ali sentado, no “Trono de Diamante do Despertar”. Através dos seus esforços passados, tinha criado as condições que permitiriam a libertação. Portanto, mesmo quando cruzamos as muitas dificuldades da vida e da prática espiritual, nós também podemos tocar a terra como uma lembrança simbólica de que a nossa vida humana só por si reflecte o nosso profundo valor.

Este pensamento é particularmente útil na nossa cultura ocidental por causa dos sentimentos generalizados de desconexão e desmerecimento. Durante uma das minhas estadias no centro de meditação de Burma, numa altura em que a minha prática parecia estar paralizada, o meu professor, Sayadaw U Pandita, disse-me para contemplar a minha sila, a palavra pali para moralidade. Ele pensou que ao recordar boas acções passadas, a minha energia aumentaria e a minha mente estaria mais positiva. Claro, quando ouvi a instrução: “Contempla a tua sila” a minha resposta interior imediata foi: “O que é que eu fiz de errado?”

Não somos frequentemente chamados a recordar as boas coisas que já fizemos. Deixados à nossa mercê, mais facilmente mergulhamos nos nossos erros passados. Mas reflectir de uma forma mais sábia na boa sorte do nosso nascimento humano e nas muitas acções positivas que nos trouxeram aqui, ajuda a desenvolver sentimentos interiores de alegria e de confiança.

2. Impermanência

O segundo pensamento de transformação da mente que nos desperta do estado de ignorância é a contemplação da impermanência – impermanência não meramente como uma compreensão intelectual, mas antes como uma forma de ser que se incorporou na nossa sabedoria viva. Todos sabemos que as coisas mudam, mas quantos de nós vivem e agem a partir desse plano de compreensão? Quando verdadeira e profundamente se vê a verdade da impermanência, os nossos corações e mentes relaxam. Menos facilmente nos agarramos tão desesperadamente às coisas, ou até aos nossos próprios desejos. Enquanto soltamos as amarras a tudo o que está sempre a mudar, necessariamente deixamos de lutar e portanto, de sofrer. Podemos ver isto claramente com os nossos corpos a envelhecer. Se estamos agarrados a que permaneçam de uma certa forma, então vamos sofrer quando se transfiguram por causa de um acidente, de uma doença, ou simplesmente pelo envelhecimento. Ajahn Chaa, um maravilhosos professor da tradição tailandesa da Floresta, expressou isto muito simplesmente: “Se te soltares um pouco, terás um pouco de paz. Se te soltares muito, terás muita paz. Se te soltares completamente, terás paz completa. A tua luta neste mundo terá chegado ao fim.”

É por vezes difícil ver e perceber que as condições mutáveis que surgem não são erros. Parecem-nos erros porque por vezes pensamos que se fossemos suficientemente espertos ou cuidadosos poderíamos evitar tudo o que é desagradável – que nunca ficaríamos doentes ou seríamos alvo do infortúnio. Na verdade, frequentemente não fizemos nada de errado. É assim que as coisas acontecem. O Buda falou das oito grandes vicissitudes da vida: prazer e dor, ganho e perda, elogio e censura, fama e descrédito. Estas mudanças acontecem a toda a gente. Uma das grandes leis do Dharma que muitas vezes re-descubro é “se não é uma coisa, é outra”.

Foi esta reflexão sobre a impermanência que inspirou Siddhartha Gautama na sua questa pela iluminação, ao procurar descobrir o que é não-nascido e não-perecível. “Porquê, sendo eu mesmo sujeito ao nascimento, procuro aquilo que também é sujeito a nascer? Porquê, sendo eu próprio sujeito ao envelhecimento, à doença, à morte, ao desgosto… procuro o que também está sujeito ao envelhecimento, à doença, à morte, ao desgosto?” Sujeitos à mudança, porque procuramos o que está sujeito à mudança? Embora a determinado nível, possamos ver e compreender a futilidade de procurar satisfação em coisas que pela sua natureza não perduram, frequentemente damos connosco a viver a nossa vida na expectativa da próxima experiência, quer esta seja as próximas férias, a próxima relação, a próxima refeição, ou apenas a próxima respiração. Curvamo-nos e assim ficamos para sempre enredados na expectativa. Reflectindo e observando directamente a impermanência lembra-nos continuamente que toda a experiência é simplesmente parte de um interminável espectáculo passageiro.

O meu primeiro professor do Dharma, Anagarika Munindra, costumava perguntar-nos: “Onde está o fim de ver, o fim de provar, o fim de sentir?” Claro que não há nada de errado com essas experiências – simplesmente não conseguem satisfazer a nossa ânsia profunda de felicidade. O maravilhoso paradoxo do caminho espiritual é que todos estes fenómenos variáveis enquanto objectos do nosso desejo deixam-nos com um vazio, enquanto como objectos de atenção plena tornam-se o veículo do despertar. Quando tentamos possuir e agarrar as experiências que pela sua natureza são transitórias, inevitavelmente ficamos insatisfeitos. Contudo, quando olhamos com consciência para a natureza continuamente inconstante destas mesmas experiências, já não somos tão conduzidos pela sede do desejo. Por “consciência” quero dizer a atitude de prestar atenção plena ao momento, abertos à verdade da mudança. Portanto não se trata de fechar os nossos sentidos e afastarmo-nos do mundo, mas de abrir o nosso olho da sabedoria e ser livre no mundo.

A percepção libertadora surge tanto de uma observação profunda e clara da impermanência em níveis momentâneos como de uma sábia consideração do que já sabemos. Como forma de praticar esta observação, na próxima vez que derem um passeio, prestem atenção ao movimento do vosso corpo e às coisas que pensam, vêm e sentem. Reparem no que acontece a todas estas experiências enquanto continuam o vosso caminho. O que acontece com elas? Onde estão? Quando olhamos, vemos tudo continuamente a desaparecer e novas coisas a surgir – não apenas em cada dia e a cada hora, mas também a cada momento. Esta verdade é tão vulgar que nem lhe prestamos atenção. Ao não prestar atenção, perdemos a oportunidade quotidiana de a qualquer momento ver directamente, e profundamente, a natureza transitória das nossas vidas. Perdemos a oportunidade de praticar a mente do desapego. “Se te soltares um pouco, terás um pouco de paz. Se te soltares muito, terás muita paz. Se te soltares completamente, terás paz completa. A tua luta neste mundo terá chegado ao fim.” Além de observar a natureza de momentânea da mudança, reflexões cuidadosas nos três aspectos óbvios e universais da impermanência podem igualmente sacudir-nos da complacência dos nossos hábitos e padrões profundamente enraizados.

Um primeiro aspecto a considerar é que o fim do nascimento é a morte. Com o passar do tempo, as nossas vidas ficam cada vez mais curtas. A vida só pode esgotar-se. Mas a nossa percepção da morte frequentemente está limitada às outras pessoas; parecem ser sempre os outros a morrer. Não consideramos muitas vezes a realidade da nossa morte ou da morte das pessoas que nos são próximas. Como experiência, imaginem-se no vosso leito da morte a olhar para trás, para a vossa vida. Imaginem isso o mais realisticamente que possam. A que é que estão mais agarrados? O que é que teriam gostado de realizar na vossa vida? O que terá mais valor nesses momentos derradeiros? O grande segredo, claro, é fazermo-nos essas perguntas agora, quando ainda temos tempo para fazer escolhas criativas e significativas. Quando reflectimos na morte, esta grande verdade da mudança, aceitamo-la? Amedronta-nos? Inspira-nos?

Em In the Days of Henry Thoreau, Walter Harding escreve sobre os últimos dias de Thoreau. É um relato espantoso de alguém que não só compreendeu a grande maravilha do mundo natural que o rodeava, mas também a perfeita naturalidade da sua própria morte. Harding cita Sophia Alcott, uma amiga que visitou Thoreau nessa altura: “Henry nunca foi afectado, nunca foi atingido pela sua doença. Nunca antes eu tinha visto uma manifestação tão poderosa do poder do espírito sobre a matéria. Muitas vezes o ouvi dizer aos seus visitantes que continuava a apreciar a existência tanto como sempre apreciou. Comentou comigo que havia tanto conforto na perfeita doença como na perfeita saúde, pois a mente sempre se conformava à condição do corpo. O pensamento da morte, disse ele, não o perturbava… Um amigo, como para o consolar, disse-lhe: “Bem, Sr. Thoreau, todos temos de ir.” Henry respondeu: “Quando eu era um rapazinho, soube que teria de morrer, e assentei isso, portanto agora não estou desapontado. A morte está tão próxima de si que de mim” Harding chega a escrever: “Alguns dos seus amigos e parentes mais ortodoxos tentaram prepará-lo para a morte, mas com pouca auto-satisfação… Quando a sua tia Louisa lhe perguntou se tinha feito as pazes com Deus, ele respondeu: “Não sabia que estávamos zangados, tia.”

O segundo aspecto da impermanência é que o fim da acumulação é a dispersão. Todas as coisas que acumulamos nas nossas vidas inevitavelmente serão dispersas. Ou porque perdemos interesse nelas (como acontece tão frequentemente) ou porque se partem, ou ficam no canto de um armário até que nos mudamos ou morremos. Contudo, a tendência para acumular é muito forte. As nossas casas de uma maneira ou de outra enchem-se de coisas, até ao ponto de arrumar a um armário ser uma grande fonte de satisfação.

Num documentário sobre a vida de Sir Laurens Van der Post, faz-se um flagrante contraste entre os Bushmen do Sul de África e os europeus que os estavam a filmar. Sir Laurens, que claramente admirava e amava a espantosa harmonia com que viviam no mundo natural, perguntou-lhes quanto tempo levariam para preparar-se para uma viagem. Eles responderam: “cerca de um minuto”. E o filme mostrava-os a pegarem nos poucos objectos de sobrevivência de que necessitavam e a partir para o deserto. Em contraste, quando a equipa de filmagem se preparou para partir, houve um aparentemente interminável carregamento do jeep, com toda a parafernália ocidental para a aventura. A sugestão aqui não é de necessariamente nos empenharmos em viver tão simplesmente como os Bushmen, – embora a simplicidade do estilo de vida deles seja remanescente dos monges errantes e sadhus (ascéticos) da Ásia – mas antes que examinemos os nossos hábitos e necessidade de acumular e de nos agarrarmos às coisas, à luz do entendimento que tudo o que acumulamos no fim de contas se dispersará.

Porque investimos tanta energia na aquisição? Deve haver muitas bases psicológicas para este comportamento, encarando-o como uma acção compensatória, e até às vezes compulsória, para uma carência profunda. Mas também podemos entender a força por detrás deste hábito de acumulação de uma forma mais simples, nomeadamente, na profunda influência que a sociedade de consumo exerce sobre as nossas mentes. Continuamente reforça desejos e quereres, muitas vezes agregando valores espirituais para o fazer. Uma recente publicidade para um automóvel mostra um casal atraente em frente de um carro novo, rodeado por todas as últimas delícias consumistas. A legenda diz: “Para se tornar um com tudo, precisa de um de tudo”. Como fomos tão condicionados à ideia de que as possessões trazem satisfação, nas nossas vidas comuns não temos muitas oportunidades de experienciar o bem-estar de uma existência mais despojada. Talvez isso explique o interesse crescente nos Estados Unidos não só em retiros de meditação como também em actividades na natureza. Nessas alturas escolhemos uma simplicidade voluntária que ilumina uma verdade básica e transformativa: a despeito de todas as publicidades, a felicidade não depende de quanto possuímos.

A impermanência também se encontra no facto de que o fim do encontro é a separação. Os encontros que temos uns com os outros são como misturar-se num sonho. Contudo, frequentemente ficamos tão enredados nas nossas relações que qualquer separação se torna fonte de um desgosto esmagador. O Buda deu um exemplo notável deste facto, ao dizer que no decurso das nossas inúmeras vidas cada um de nós já verteu mais lágrimas devido à morte das pessoas que amamos do que toda a água dos oceanos. Embora os sentimentos de perda e pesar sejam naturais na maior parte de nós, mesmo assim, quanto mais contemplamos e aceitamos a verdade que todos os encontros terminarão com uma separação, menos provavelmente nos afogaremos nessas águas.

Podemos começar a experenciar a diferença entre amor e apego, entre perda e desgosto. O amor é uma generosidade do coração que simplesmente deseja a felicidade dos outros; apego é uma contracção do coração, nascido do desejo, que resulta no agarrar-se e no medo da perda. Reflectir na impermanência inevitável das nossas relações reorienta-nos para a solicitude e o amor-bondade em vez do apego, para soltar em vez de apertar. A compreensão da impermanência conduz-nos para a experiência da liberdade, pois nesses momentos de desprendimento podemos aceder e realmente saborear o que realmente tem valor nas nossas vidas.

3. A Lei do Karma

O terceiro pensamento que volta a nossa mente para o Dharma é a compreensão que tudo o que fazemos tem um efeito – todas as nossas acções têm consequências. No ensinamento do Buda isto chama-se a lei do Karma, a compreensão que somos os herdeiros das nossas próprias acções. Este ensinamento é referido como “a luz do mundo” porque ilumina a forma como a nossa vida se manifesta e como muitas coisas são da forma que são. Compreender o karma é a chave para compreender a felicidade.

Dito simplesmente, acções produzem resultados. Podemos nem sempre ter a sabedoria de ver ou antecipar os resultados correctamente ou podemos ter deles simplesmente uma visão parcial mas é esta compreensão comum que nos inspira todos a agir. Antecipamos algum resultado das nossas acções, quer este seja um ganho mundano, quer seja em maior sabedoria e compaixão.

O Buda avançou um passo essencial na clarificação este processo de acção e resultado. A possibilidade para a nossa felicidade e na verdade para toda a nossa viagem espiritual, repousa na clarificação de que o que determina mais completamente o resultado de qualquer acção, é a motivação por detrás dela. O ensinamento dos tibetanos expressa-o de uma forma muito sucinta: tudo assenta no cume da motivação.

Podemos ver facilmente como isto funciona no mundo. Há uma diferença, tanto no modo como nos sentimos como no efeito que produzem nos outros, entre acções motivadas pela cobiça ou inveja e as motivadas pela generosidade ou amor – mesmo quando a acção exterior é a mesma. Podemos dar um presente a alguém por um genuíno sentimento de amor, porque queremos que essa pessoa goste de nós ou porque parece bem aos olhos dos outros. As consequências de cada uma destas diferentes motivações serão muito diferentes, tanto no momento como a longo prazo.

Devido à grande importância da motivação ao determinar os resultados das nossas acções, torna-se essencial que saibamos efectivamente quais são as nossas motivações. Isto não é fácil. Precisamos de tremenda coragem, honestidade e abertura para olharmos nos nossos corações. Ao estarmos desatentos, pura e simplesmente representamos os nossos hábitos e condicionamento. Sem saber quais as nossas motivações, temos poucas hipóteses de abandonar motivações inábeis ou de desenvolver sabedoria genuína.

Durante muito tempo na minha prática de meditação ficava embaraçado e envergonhado ao ver na minha mente estados de mente prejudiciais, estados como orgulho ou ciúme, má vontade ou egoísmo; e em vez de os examinar e trabalhar liberto deles, fazia julgamentos sobre mim próprio e cavava ainda mais fundo o buraco em que me encontrava. Ou sentir-me-ia julgado e infeliz quando os meus professores ou outras pessoas apontavam estes estados mentais desarmoniosos. Mas depois de anos de prática, acabo por me sentir agradecido quando observo o surgimento de um desses estados negativos, porque agora mais facilmente os vejo. Torna-se mais uma oportunidade de me desprender desses padrões, de ver a sua transparência essencial, e por me soltar do fardo que representam.

4. Os Sofrimentos do Samsara

O Quarto Pensamento que volta a nossa mente para o Dharma é a reflexão nos sofriemntos do samsara. Samsara é uma palavra pali e sânscrita que significa “perpétuo vaguear”, ou o vaguear através de ciclos de existência sem fim. De acordo com o ensinamento do Buda, circulamos através de todos os reinos de existência – do mais alto ao mais baixo – até emergirmos do sonho da ignorância. Somos como uma abelha prisioneira num grande frasco; podemos zumbir às voltas de cima para baixo e de baixo para cima, mas continuamos prisioneiros enquanto a tampa não for retirada.

Vemos este mesmo processo a funcionar nesta mesma vida. Num só dia, repare-se em quantos diferentes mundos criamos na nossa mente, rolando na montanha russa dos nossos estados de espírito sempre a mudar, das nossas emoções e pensamentos. Ficamos felizes quando pensamos nos que amamos, frustrados no trabalho, excitados em relação a determinados planos futuros, zangados com alguém que está a ser difícil, deprimidos com o estado do nosso mundo, calmos com a nossa meditação…. O movimento da mente não pára.

Em contraste com este ciclo de momentâneos renascimentos em diferentes estados, prestem atenção ao momento de acordar de um período longo de profundo pensamento ou disposição de espírito muito concentrada. Tal como quando saímos de um cinema. O filme parecia tão real quando estávamos lá dentro, contudo tão ilusório quando emergimos. É a mesma coisa quando emergimos do cinema da nossa mente. O que parece tão real e sólido sob uma perspectiva torna-se realmente vazio e transparente sob outra. Ao acordarmos de um momento em que nos perdemos num pensamento, sentimento ou reacção, nesse preciso momento podemos reconhecer a natureza vazia, clara como o céu da própria consciência. Nesse momento de despertar, temos um vislumbre de liberdade. E em vez de nos criticarmos por todos os momentos em que nos perdemos, o que acontece uma e outra vez, podemos deliciarmo-nos por cada momento de despertar.

Estes Quatro Pensamentos conduzem a nossa mente para a descoberta da natureza das nossas mentes, ao afastar as nuvens da confusão e ajudar-nos a ver mais claramente a verdade das nossas vidas. Esta não é uma tarefa fácil, e tal como Spinoza escreveu: “Todas as coisas nobres são tão difíceis quanto raras.”

Texto de Joseph Goldstein, do livro One Dharma. Joseph Goldstein começou a interessar-se por budismo quando na Tailândia, em 1965, ao serviço dos Peace Corps. A partir de 1967 estudou e praticou diferentes formas de meditação budista, sob a orientação de eminentes professores da Índia, Birmânia e Tibete. Em 1974 começou a orientar retiros de meditação e pouco depois co-fundou a Insight Meditation Society em Barre, Massachusetts, e mais tarde o Barre Center for Buddhist Studies, onde é um dos professores mais procurados.

Trad. de Margarida Cardoso

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