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Sutra em Quarenta e Duas Secções

3369430713_4e2da9e7bcPossam todos os seres encontrar o Dharma e despertar a mente Bodhi

Depois de se tornar um Buda, o Honrado Pelo Mundo ensinou assim: “Ser calmo e livre das paixões é o mais excelente dos Caminhos.”
Absorvido em Grande Meditação, subjugou todos os seres maléficos e no Parque Real das Gazelas fez girar a Roda do Dharma, ensinou as Quatro Nobres Verdades e converteu os cinco Bhiksus, Kaundinya e os seus companheiros, conduzindo-os à Iluminação.
Outros Bhiksus pediram ao Buda que removesse as dúvidas que tinham em relação à doutrina. O Honrado Pelo Mundo iluminou as suas mentes com a autoridade dos seus ensinamentos. Os Bhiksus, juntaram as mãos, prosternaram-se reverentemente e seguiram as suas augustas instruções.

Secção 1 – Sair de casa e tornar-se um Arhat

“Aqueles que deixam a família e saem de casa, que conhecem a mente e alcançam-lhe a origem e que compreendem o Dharma não-condicionado chamam-se Shramanas. Observam os duzentos e cinquenta preceitos de moralidade e a sua conduta é pura e sem mácula. Esforçam-se na prática dos quatro caminhos verdadeiros e podem alcançar o estado de Arhat. O Arhat é capaz de voar pelo espaço e de assumir diferentes formas, a sua vida é eterna e por vezes fazem tremer a terra e o céu. A seguir está o Anâgâmin. No fim da sua vida, o espírito do Anâgâmin ascende ao décimo nono paraíso e alcança o estado de Arhat.
Depois está o Skridâgâmin. O Skridâgâmin ascende aos céus [depois da morte]; regressa uma vez mais à terra e obtém então o estado de Arhat. Depois está o Srotaâpanna. O Srotaâpanna morre e renasce sete vezes e finalmente alcança o estado de Arhat. Por corte das paixões entende-se que elas são cortadas como membros que uma vez amputados nunca mais se utilizam.”

Secção 2 – Eliminar o desejo e acabar com o sofrimento

O Buda disse, “Aqueles que deixam a sua casa e se tornam Shramanas cortam o desejo, renunciam ao amor e reconhecem a fonte das suas mentes. Penetram os profundos princípios do Buda e despertam para o Dharma não-condicionado. Interiormente, não têm o que alcançar, exteriormente nada procuram. Não estão presos mentalmente ao Caminho nem limitados pelo karma. Livres de pensamento e acção, nem praticam nem obtêm confirmação, não passam pelos vários estados e ainda possuem todas as honras. – Este é o sentido do Caminho.”

Secção 3 – Cortar o amor e renunciar ao apego

O Buda disse, “Rapam o cabelo e a barba e tornam-se Shramanas que aceitam os Dharmas do Caminho. Renunciam à fortuna e às riquezas mundanas. Ao receberem esmolas, aceitam só o necessário. Tomam apenas uma refeição por dia, passam a noite debaixo de árvores e são cuidadosos em não procurar mais do que isso. O apego e o desejo obscurecem a mente e tornam as pessoas estúpidas.”

Secção 4 – Clarificar o bem e o mal

O Buda disse, “Os seres vivos levam a cabo as Dez Boas Acções ou as Dez Más Acções. Quais são elas? Três são praticadas com o corpo, quatro com a boca e três com a mente. As três praticadas com o corpo são matar, roubar e fornicar. As quatro praticadas com a boca são a hipocrisia, a mentira, a agressão verbal e a frivolidade. As três praticadas com a mente são a inveja, o ódio e a ignorância. Assim, estas dez acções não estão de acordo com o Caminho dos Sábios e são chamadas as Dez Más Acções. Não cometer estes males é praticar as Dez Boas Acções.”

Secção 5 – Reduzir a gravidade das ofensas

O Buda disse, “Se uma pessoa tem muitas falhas e não se arrepende delas, mas em vez disso afasta os pensamentos de arrependimento, as ofensas afundá-lo-ão, tal como a água que corre para o mar se torna progressivamente mais funda e larga. Se uma pessoa tem ofensas e, ao perceber que procede erradamente, se corrige e pratica apenas o bem, as ofensas dissolver-se-ão por si mesmas, tal como um doente que começa a transpirar vai ficando curado gradualmente.”

Secção 6 – Tolerar os malfeitores e evitar o ódio

O Buda disse, “Quando uma pessoa malévola ouve falar da tua bondade e vem prejudicar-te intencionalmente, deves controlar-te e não ficar zangado nem amaldiçoá-la. Então aquele que veio para praticar o mal fará mal apenas a si próprio.”

Secção 7 – O mal retorna para o malfeitor

O Buda disse, “Uma vez houve um homem que, ao ouvir dizer que eu seguia o Caminho e praticava a Grande Compaixão, veio ter comigo e insultou-me. Permaneci calado e não respondi. Quando acabou de me insultar, perguntei-lhe, ‘Se levares um presente ao teu vizinho e ele não o aceitar, o presente fica para ti?’ ‘Sim’ respondeu ele. Então disse-lhe: ‘Agora insultaste-me; como não aceitei os teus insultos, deves carregar contigo essa má acção. É como o eco de um som, a sombra que segue um objecto; não é possível escapares ao efeito das tuas más acções. Mantém-te atento e deixa de praticar o mal.’”

Secção 8 – Aquele que abusa dos outros mancha-se a si próprio

O Buda disse, “Uma pessoa má que prejudica um sábio é como alguém que ergue a cabeça e cospe para o céu. Em vez de atingir o céu, o cuspe cai sobre ela. É o mesmo com alguém que atira areia contra o vento. Em vez de se afastar, a areia vem para trás e suja-lhe o corpo. O sábio não pode ser atingido. As más acções destruirão inevitavelmente aquele que as pratica.”

Secção 9 – Ao regressar à fonte, encontras o Caminho

O Buda disse, “Apegar-se ao Caminho com muito conhecimento faz o Caminho difícil de alcançar. Quando se segue o Caminho mantendo o coração simples, o Caminho é realmente grande!”

Secção 10 – A generosidade alegre confere bênçãos

O Buda disse, “Quando vires alguém a praticar a generosidade, ajuda-o alegremente e obterás assim muitas e grandes bênçãos.”
Um Shramana perguntou, “Existe algum fim para essas bênçãos?”
O Buda respondeu, “Pensa na luz de uma única tocha. Ainda que centenas de milhares de pessoas venham acender nela as suas tochas de modo a que possam cozinhar o seu alimento e iluminar a escuridão, a tocha permanecerá igual. As bênçãos são também assim.”

Secção 11 – O mérito obtido pela dádiva de alimento

O Buda disse, “Dar comida a mil pessoas más não é tão bom como dar comida a uma única pessoa boa. Dar comida a mil pessoas boas não é tão bom como dar comida a uma pessoa que mantenha os cinco preceitos. Dar comida a dez mil pessoas que mantenham os cinco preceitos não é tão bom como dar comida a um único Srotapanna. Dar comida a um milhão de Srotapannas não é tão bom como dar comida a um único Sakridagamin. Dar comida a dez milhões de Sakridagamins não é tão bom como dar comida a um único Anagamyn. Dar comida a cem milhões de Anagamyns não é tão bom como dar comida a um único Arhat. Dar comida a um bilião de Arhats não é tão bom como dar comida a um único Pratyekabuda. Dar comida a dez biliões de Pratyekabudas não é tão bom como dar comida a um Buda dos três períodos de tempo. Dar comida a cem biliões de Budas dos três períodos de tempo não é tão bom como dar comida a uma única pessoa que seja sem pensamento, sem lugar, sem prática e sem realização.”

Secção doze Uma lista de dificuldades e uma exortação à prática

O Buda disse, “As pessoas encontram vinte tipos de dificuldades.
É difícil dar quando se é pobre.
É difícil estudar o caminho quando se tem dinheiro e estatuto.
É difícil abandonar a vida e enfrentar a certeza da morte.
É difícil encontrar os sutras budistas.
É difícil nascer quando um Buda está no mundo.
É difícil suportar a luxúria e o desejo.
É difícil ver coisas preciosas e não as desejar.
É difícil ser insultado e não se enfurecer.
É difícil ter poder e não abusar dele.
É difícil entrar em contacto com as coisas e não ser afectado por elas.
É difícil ter um conhecimento vasto e investigar profundamente.
É difícil vencer o orgulho.
É difícil não menosprezar quem ainda não estudou.
É difícil manter a mente em equanimidade.
É difícil não falar dos outros e não dar opiniões.
É difícil encontrar um Mestre Bom e Sábio.
É difícil ver a própria natureza e estudar o Caminho.
É difícil ensinar as pessoas e conduzi-las à Iluminação de acordo com as suas capacidades.
É difícil ser o mestre de si mesmo perante todas as situações.
É difícil entender completamente os meios hábeis dos Budas.”

Secção 13 – Questões acerca do Caminho e de vidas passadas

Um Shramana perguntou a Buda, “Que causas e condições me podem levar a conhecer as minhas vidas passadas e a entender o supremo Caminho?”
O Buda disse, “Aqueles que são puros e perseverantes compreendem o supremo Caminho. Tal como se polires um espelho, o pó desaparece e surge o brilho, da mesma forma, se cortares o desejo e não procurares, conhecerás as vidas passadas.”

Secção 14 – Bondade e grandeza

Um Shramana perguntou a Buda, “O que é a bondade? O que é a suprema grandeza? O Buda respondeu, “Bondade é praticar o Caminho e manter a verdade. Grandeza é unir a vontade ao Caminho.”

Secção 15 – Questões acerca da força e do brilho

Um Shramana disse a Buda, “Qual é a maior força? Qual é o supremo brilho?”
O Buda disse, “A paciência debaixo de insultos é a maior das forças, porque as pessoas pacientes não alimentam o ódio e tornam-se gradualmente mais pacíficas e fortes. As pessoas pacientes, como não são más, obterão seguramente o respeito dos outros. Então as impurezas da mente desaparecem completamente e ela torna-se pura e sem mácula, esse é o supremo brilho. Quando nada existe, desde antes da formação do céu e da terra até agora, que não vejas, conheças ou ouças, quando alcançaste a omnisciência, a isso pode chamar-se brilho.”

Secção 16 – Pôr de parte o amor e alcançar o Caminho

O Buda disse, “Aqueles que têm paixões e desejos não vêm o Caminho. Tal como quando agitas a água clara com a tua mão, aqueles que estão perante ela são incapazes de ver o seu reflexo, as pessoas que estão presas no amor e no desejo têm a mente poluída e por isso são incapazes de ver o Caminho. Vocês, Shramanas, devem pôr de parte o amor e o desejo. Quando as manchas do amor e do desejo desaparecerem, sereis capazes de ver o Caminho.”

Secção 17 – Quando aparece a luz desaparece a escuridão

O Buda disse, “Aqueles que vêem o caminho são como alguém que entra num quarto escuro com uma tocha, dissipando a escuridão de modo que só a luz permanece. Quando vocês estudam o Caminho e vêem a verdade, a ignorância dissipa-se e a luz permanece para sempre.”

Secção 18 – Os pensamentos e afins são vazios

O Buda disse, “A minha doutrina é pensar o pensamento impensável, levar a cabo a acção que é não-acção, expressar o indizível, praticar a disciplina que está além da disciplina. Aqueles que compreendem estão próximos, os que estão confusos estão realmente longe. Não é acessível pela via da linguagem, não é obstruída por objectos materiais. Se falhares por um cabelo perdê-la-ás de imediato.”

Secção 19 – Contemplar o falso e o verdadeiro

O Buda disse, “Contemplem o céu e a terra e estejam cientes da sua impermanência. Contemplem o mundo e estejam cientes da sua impermanência. Contemplem a natureza iluminada, é a natureza Bodhi. Com esta consciência alcança-se rapidamente o Caminho.”

Secção 20 – Percebam que o eu é realmente vazio

O Buda disse, “Devem estar conscientes dos quatro elementos no corpo. Ainda que todos tenham um nome, nenhum deles é o eu. Como não são o eu, são como uma ilusão.”

Secção 21 – A fama destrói as raízes da vida

O Buda disse, “Existem pessoas que seguem as emoções e o desejo e procuram ser famosas. Quando a sua reputação se estabelece já estão mortas. Aqueles que são ávidos de fama mundana e não estudam o Caminho, simplesmente desperdiçam os seu esforços e acabam esgotadas. É como um pau de incenso a arder. Por mais agradável que seja o seu perfume, a chama consome o seu corpo rapidamente.”

Secção 22 – A riqueza e o sexo provocam sofrimento

O Buda disse, “As pessoas são incapazes de renunciar à riqueza e ao sexo. São como uma criança que não resiste comer o mel da lâmina de uma faca; mesmo que o resultado não seja suficiente sequer para uma refeição, ela ainda assim arrisca-se a cortar a língua.”

Secção 23 – A família é pior do que uma prisão

O Buda disse, “As pessoas são apegadas às suas famílias a ponto de estas se tornarem piores do que uma prisão. Eventualmente um prisioneiro é libertado mas as pessoas nunca pensam em deixar as suas famílias. Será que não temem o controle que as emoções, o amor e o sexo exercem sobre si? Apesar de estarem nas mandíbulas de um tigre, os seus corações estão despreocupados. Como se lançam para um pântano e se afogam, são pessoas ignorantes. Passa a barreira, levanta-te do pó e torna-te um Arhat.”

Secção 24 – O desejo sexual impede o Caminho

O Buda disse, “De todos os apegos e desejos, nenhum é tão forte como o sexo. O desejo sensual não tem equivalente. Se houvesse algum desejo ainda mais forte, ninguém no mundo seria capaz de praticar o Caminho.”

Secção 25 – O fogo do desejo queima

O Buda disse, “Uma pessoa com amor e desejo é como alguém que transporta uma tocha em chamas contra o vento: sem dúvida acabará por queimar a mão.”

Secção 26 – Os demónios celestiais tentaram o Buda

Os demónios celestiais ofereceram ao Buda mulheres belas, na esperança de destruírem a sua convicção. O Buda disse, “O que vieram aqui fazer estes sacos de carne cheios de imundice? Vão-se embora, não tenho qualquer uso para vós.”
Então os demónios celestiais aproximaram-se cheios de respeito e perguntaram acerca do sentido do Caminho. O Buda ensinou-os e de imediato alcançaram o estado de Srotaapanna.

Secção 27 – O Caminho é encontrado depois de deixar-mos cair os apegos

O Buda disse, “As pessoas que seguem o Caminho são como um pedaço de madeira levado pela corrente de um rio. Se não tocar nenhuma das margens, se ninguém o apanhar, se não for interceptado por fantasmas ou demónios, se não ficar preso nos redemoinhos e se não se desfizer, garanto que esse tronco alcançará o mar. Se os estudantes do Caminho não se iludirem com a emoção e o desejo e se não se deixarem apanhar pelas muitas noções erróneas, mas forem vigorosos na sua prática do não-condicionado, garanto que decerto alcançarão o Caminho.

Secção 28 – Não se entreguem à mente selvagem

O Buda disse, “Tenham cuidado em não confiar na vossa mente; não devem acreditar nela. Sejam cuidadosos para não se envolverem em sexo; o sexo conduz ao desastre. Depois de alcançarem o estado de Arhat, podem acreditar na vossa mente.”

Secção 29 – A contemplação apropriada anula o desejo sexual

O Buda disse, “Tenham cuidado para não olharem as mulheres e não falarem com elas. Se tiverem de falar com elas, mantenham a vigilância apropriada e pensem, ‘Sou um Shramana a viver neste mundo turvo. Devo ser como a flor de lótus que não é suja pela lama.’ Pensem nas mulheres mais idosas como vossas mães, nas mais velhas como irmãs mais velhas, nas mais jovens como irmãs mais novas e nas crianças como vossas filhas. Mantenham em mente a ideia de as libertar e ponham um fim aos maus pensamentos.

Secção 30 – Mantenham-se afastados do fogo do desejo

O Buda disse, “As pessoas que praticam o Caminho são como erva seca: é essencial mantê-la afastada do fogo. As pessoas que praticam o Caminho olham o desejo como algo de que se devem afastar.”

Secção 31 – Quando a mente está tranquila, o desejo desaparece

O Buda disse, “Uma vez, um homem que não conseguia controlar o seu insaciável desejo sexual pensou em castrar-se. O Buda disse-lhe, “Cortar o teu órgão sexual não é tão bom como cortar a tua mente. A tua mente é como um supervisor: se o supervisor pára os seus subordinados também param. Se a mente desviante não for travada, de que serve cortar um órgão?”
O Buda disse-lhe então um verso:
“O desejo nasce das tuas intenções.
As intenções nascem dos teus pensamentos.
Quando estes dois aspectos da mente estão tranquilos,
Não existe forma nem actividade.”
O Buda disse, “Este verso foi proferido pelo Buda Kashiapa.”

Secção 32 – Esvaziar o eu acaba com o medo

O Buda disse, “As pessoas preocupam-se devido ao amor e ao desejo. Essa preocupação conduz ao medo. Se transcenderes o amor, que preocupações não desaparecerão? O que haverá ainda a temer?”

Secção 33 – A sabedoria e a clareza derrotam os demónios

O Buda disse, “As pessoas que praticam o Caminho são como um soldado que vai para a batalha sozinho contra dez mil inimigos. Ele coloca a sua armadura e sai o portão. Pode revelar-se um cobarde, pode chegar a meio caminho do campo de batalha e retirar, pode ser morto em combate ou pode regressar vitorioso. Shramanas que estudam o Caminho devem tornar a sua mente resoluta, corajosa e valorosa. Sem temerem o que os espere, devem derrotar as hordas de demónios e obter os frutos do Caminho.”

Secção 34 – Permanecendo no meio, alcança-se o Caminho

Uma noite um Shramana estava a recitar o “Sutra do Ensinamento Legado pelo Buda Kashyapa.” O som da sua voz era muito pesaroso e denotava o seu desejo de desistir da sua prática. O Buda disse-lhe, ‘No passado, antes de abandonares a vida mundana, qual era a tua ocupação?’ ele respondeu, ‘Era tocador de cítara.’ O Buda disse, ‘O que acontecia quando as cordas estavam demasiado lassas?’ ele respondeu ‘Não tocavam.’ ‘O que acontecia quando estavam demasiado esticadas?’ ‘Partiam-se.’ ‘O que acontecia quando não estavam nem demasiado lassas nem demasiado esticadas?’ ‘Os sons eram fluentes.’ O Buda disse, ‘Acontece o mesmo com um Shramana que pratica o Caminho. Se a sua mente está correctamente ajustada, pode alcançar a Via. Se for muito impetuoso em relação à prática, o seu corpo ficará fatigado, com o corpo fatigado, a mente fica esgotada. Com a mente esgotada, recuará na prática. Se recuar na prática, os seus erros vão aumentar.
Só precisas de te manter puro, pacífico e alegre, e assim não perderás o Caminho.”

Secção 35 – Depois de limpar as impurezas aparece o brilho

O Buda disse, “As pessoas depuram o metal de toda a escória para fazerem utensílios de qualidade. É o mesmo com aqueles que estudam o Caminho. Se libertarem a mente e o coração de toda a impureza, a sua prática será pura.”

Secção 36 – A sequência que conduz ao sucesso

O Buda disse, “É difícil para um ser deixar os destinos nefastos e tornar-se um ser humano.
Mesmo que se torne um ser humano, é ainda assim difícil nascer homem em vez de mulher.
Mesmo que se torne um homem, é ainda assim difícil ter os seis órgãos dos sentidos completos e perfeitos.
Mesmo que obtenha seis órgãos dos sentidos completos e perfeitos, é ainda assim difícil nascer num país central.
Mesmo que nasça num país central, é ainda assim difícil nascer numa época em que exista um Buda no mundo.
Mesmo que nasça numa época em que existe um Buda no mundo, é ainda assim difícil encontrar o Caminho.
Mesmo que encontre o Caminho, é ainda assim difícil despertar a fé.
Mesmo que desperte a fé, é ainda assim difícil despertar a aspiração à Mente Bodhi [Mente da Iluminação].
Mesmo que desperte a aspiração à Mente Bodhi, é ainda assim difícil passar para além da prática e da realização.”

Secção 37 – Permanecer ciente dos preceitos morais aproxima-nos do Caminho

O Buda disse, “Os meus discípulos podem estar afastados de mim vários milhares de léguas, mas se recordarem os meus preceitos morais, alcançarão com certeza os frutos do Caminho. Se aqueles que estão junto a mim não seguem os meus preceitos morais, podem ver-me constantemente, mas no final não alcançarão o Caminho.”
Secção 38 – O nascimento conduz à morte

O Buda perguntou a um Shramana, “Qual é a duração da vida humana?” Ele respondeu, “Alguns dias.” Buda disse, “Ainda não entendeste o Caminho.”
Perguntou a outro Shramana, “Qual é a duração da vida humana?” Ele respondeu, “O tempo de uma refeição.” Buda disse, “Ainda não compreendeste o Caminho.”
Perguntou ainda a outro Shramana, “Qual é a duração de uma vida humana?” Ele respondeu, “O tempo de uma respiração.” Buda disse, “Excelente. Compreendeste o Caminho.”

Secção 39 – As instruções do Buda não são parciais

O Buda disse, “Os praticantes da Via de Buda devem acreditar e concordar com tudo que o Buda ensina. Quando vocês comem mel, é doce à superfície e doce no centro; assim é também com os meus sutras.”

Secção 40 – O Caminho é praticado na mente

O Buda disse, “Um Shramana que pratica o Caminho não deve ser como um boi a girar uma mó. O que assim for percorre o seu Caminho com o corpo mas a sua mente não está no Caminho. Se a mente está concentrada no Caminho, o que é que falta ainda praticar?”

Secção 41 – Uma mente recta livra-se do desejo

O Buda disse, “Aquele que pratica o Caminho é como um boi que puxa uma carroça pela lama funda. O boi está tão exausto que não se atreve a olhar para a direita ou para a esquerda. Apenas quando sai da lama é que pode descansar. O Shramana deve olhar a emoção e o desejo como sendo piores do que lama funda, e com uma mente sem desvios, deve ser consciente do Caminho. Assim ele pode evitar o sofrimento.”

Secção 42 – Compreender que o mundo é ilusório

O Buda disse, “Vejo os reis e altos dignatários como pó que flutua num raio de luz. Vejo os tesouros de ouro e jade como telhas partidas. Vejo as vestes de seda fina como um farrapo gasto. Vejo o grande universo de mil mundos como uma pequena amêndoa. Vejo o lago de Anavatapta como óleo para ungir os pés. Vejo os vários métodos de salvação ensinados pelos Budas como um tesouro criado pela imaginação. Vejo a doutrina transcendental do Budismo como metal precioso ou um tecido raro visto num sonho. Vejo o ensinamento dos Budas como uma flor perante os meus olhos. Vejo a prática de Dhyana como um pilar a suportar o Monte Sumeru. Vejo o Nirvana como o despertar de um sonho acordado ou de um pesadelo. Vejo a luta entre a doutrina ortodoxa e heterodoxa como as travessuras dos seis dragões [místicos]. Vejo a doutrina do Ser Mesmo [Sameness] como o chão absoluto da realidade. Vejo todas as acções religiosas realizadas para a salvação universal como as plantas nas quatro estações.”

Fim do Sutra em Quarenta e Duas Secções
Possam todos os seres alcançar a paz

Traduzido por João Rodrigues com base na versão inglesa da Buddhist Text Translation Society
com consulta à versão de D.T. Suzuki

revisão: Margarida Cardoso

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