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A Compaixão

quan_yinMovidos pela compaixão, os Bodhisattvas tomam o voto de libertar todos os seres sensíveis.

A compaixão é essencial nos estádios inicial, intermédio e final do desenvolvimento espiritual. De acordo com este popular ensinamento, os Bodhisattvas, grandes seres fortemente motivados e movidos pela compaixão, assumem o compromisso de alcançar o estado de omnisciência para o bem de todos os seres sensíveis. Esta determinação é o espírito de iluminação [Bodhicitta], que é um pensamento altruísta, derivado da compaixão.

Depois, superando a sua perspectiva egocentrada, empenham-se ardente e continuamente nas muito difíceis práticas de acumular mérito e conhecimento.

Pelo poder de gerar o espírito de iluminação [Bodhicitta], eles submetem-se ao treino dos Bodhisattvas, que inclui o desenvolvimento das seis perfeições, sem questionar quanto tempo será necessário até o consumar. Em resultado disso, tornam-se gradualmente aptos para acumular imenso mérito e conhecimento sem grande esforço.

Tendo entrado nesta prática, eles completarão certamente a acumulação de mérito e conhecimento. Realizar a acumulação de mérito e conhecimento é como ter a própria omnisciência na palma da vossa mão. Portanto, como a compaixão é a única raiz da omnisciência, deveis familiarizar-vos com esta prática desde o princípio.

O autor menciona aqui ser a compaixão a única raiz, ou fundamento, da omnisciência. A palavra «única» acentua ser a compaixão uma causa essencial da omnisciência, mas não nega outras causas e condições. Sublinha o facto de a compaixão ser uma causa necessária porque sem ela não se alcança a omnisciência. Mas se bastasse só a compaixão então seria contradita a anterior declaração sobre a necessidade de exercitar a compaixão, o espírito de iluminação [Bodhicitta] e os meios hábeis.

O Compêndio do Perfeito Dharma diz: « Ó Buda, um Bodhisattva não deve exercitar–se em muitas práticas. Se um Bodhisattva persistir correctamente num único Dharma e o aprender perfeitamente tem todas as qualidades do Buda na palma da sua mão. E, se perguntarem que único Dharma é esse, ele é a grande compaixão.»

Aqui o Buda fortemente sublinha a importância da compaixão. É na base da compaixão que o espírito de iluminação [Bodhicitta] é gerado, o indivíduo se empenha nas acções de um Bodhisattva e assim atinge a iluminação. O corolário da tese é que sem compaixão não podeis gerar o supremo espírito de iluminação [Bodhicitta] que acarinha os outros mais do que a si próprio. Sem esta atitude altruísta é impossível praticar as acções dos Bodhisattvas no Mahayana, como as seis perfeições. E sem seguir este procedimento não podeis alcançar o estado omnisciente da Budeidade. É por isto que a compaixão é tão importante.

Os Budas já atingiram todos os seus objectivos, mas permanecem no ciclo da existência enquanto aí existirem seres sensíveis. Isto porque possuem uma grande compaixão. Eles também não entram na morada imensamente bem-aventurada do nirvana como os Ouvintes. Considerando primeiro os interesses dos seres sensíveis, eles abandonam a pacífica residência do nirvana como se fosse uma casa de ferro ardente. Logo, só a grande compaixão é a inevitável causa do nirvana sem aí permanecer do Buda (ver nota).

A compaixão é altamente louvada em muitos tratados e nunca é demais salientar a sua importância. Chandrakirti pagou um largo tributo à compaixão, afirmando-a essencial nos estádios inicial, intermédio e final do caminho para a iluminação.

Inicialmente, o espírito de iluminação [Bodhicitta] é gerado tendo a compaixão por raiz, ou base. A prática das seis perfeições, e assim por diante, é essencial se um Bodhisattva pretende alcançar o objectivo final. No estádio intermédio a compaixão é igualmente relevante. E mesmo após a iluminação é ela que induz os Budas a não permanecerem no estado bem-aventurado de nirvana complacente. Ela é a força motivadora que permite aos Budas entrarem no nirvana sem aí permanecer e realizarem o Corpo da Verdade, que representa o cumprimento do vosso próprio objectivo, e o Corpo Formal, que representa o cumprimento das necessidades dos outros. Assim, pelo poder da compaixão, os Budas servem os interesses dos seres ininterruptamente enquanto o espaço existir. Isto mostra que o espírito de iluminação [Bodhicitta] permanece crucial mesmo depois de se atingir o destino final. A referência de Kamalashila a outro tratado de Chandrakirti sustenta a validade desta tese e tem ainda a vantagem de ajudar a persuadir a sua audiência.

Em geral, na tradição budista, as visões filosóficas não têm de ser provadas unicamente pela autoridade das escrituras. Com efeito, os indivíduos devem confiar em primeiro lugar na lógica e no raciocínio para ganharam fé e convicção na filosofia. Os objectos do conhecimento podem ser de um modo geral classificados como fenómenos óbvios, fenómenos parcialmente ocultos e fenómenos completamente ocultos. Não é necessário usar a lógica para provar a existência dos fenómenos óbvios. Podemos experimentá-los e compreendê-los directamente e assim verificar a sua existência. Uma vez que os fenómenos parcialmente ocultos não podem ser verificados pela experiência directa, necessitam de ser demonstrados aplicando a lógica. O objecto da análise é então compreendido por cognição inferida baseada na experiência. Várias linhas de raciocínio podem ser necessárias para realizar o propósito. Pessoas cuja compreensão está num nível inicial de desenvolvimento possivelmente não podem examinar os fenómenos totalmente ocultos através da ciência da lógica. Estes fenómenos também dificilmente podem ser provados através da nossa experiência. É aqui que temos de confiar numa válida autoridade das escrituras.

A fiabilidade, ou autoridade, dos ensinamentos das escrituras carece em primeiro lugar de ser demonstrada. Do mesmo modo, a validade, ou credibilidade, do mestre que deu tais ensinamentos deve ser provada. A autoridade das escrituras deve ser capaz de suportar uma análise em três linhas – que os ensinamentos referentes aos fenómenos óbvios não são contraditos pela apreensão directa; que os ensinamentos referentes aos fenómenos parcialmente obscuros não são contraditos pela cognição inferida; e que os seus ensinamentos referentes aos fenómenos muito obscuros não são contraditos pela cognição inferida baseada na fé. A validade desta autoridade das escrituras deve, por sua vez, ser testada pelo raciocínio lógico. Como se ensina que os ensinamentos são verdadeiros, ou válidos, quanto ao seu sentido principal, ou mais importante objectivo, a sua validade a respeito de outros objectivos pode ser entendida por inferência. O nosso principal objectivo é o estado de bem último (nirvana e omnisciência), enquanto um renascimento favorável como ser humano ou deus é um objectivo vulgar. Pelo que, quando não se verifica que os ensinamentos que propõem o processo para realizar o bem último sejam falíveis segundo o exame lógico, simplesmente não é possível que o sejam no que concerne ao objectivo vulgar. É de senso comum considerar que quando algo é verdadeiro com respeito aos aspectos difíceis de uma questão, está para além de dúvida que o seja no que concerne matérias simples.

Além disso, o mestre que deu estes ensinamentos era uma pessoa honrada e digna de confiança. Atingiu a sua realização pelo poder da sua prática da compaixão. Porque possuía uma grande compaixão, estava verdadeiramente motivado para beneficiar todos os seres sensíveis. Pela força da grande compaixão deu os ensinamentos para demonstrar o curso da via que o ajudou a eliminar os obstáculos, passando para o estado da mais elevada perfeição. O Buda ensinou à luz da sua própria experiência e, uma vez que possuía uma realização directa da realidade última, era extremamente competente para revelar a verdade. O seu serviço foi incondicional e incansável, estando preparado para trabalhar em benefício dos seres sensíveis durante éons, sem considerar a natureza da tarefa implicada. Compreender e reflectir sobre estes assuntos deveria ajudar-nos a ganhar convicção na validade destes ensinamentos.

Por estas razões se diz ser sensato citar certos ensinamentos textuais para fundamentar uma tese ou uma prática. Este processo é muito útil – dissipa numerosas dúvidas injustificáveis e infunde novos vislumbres.

Capítulo 3 de Estágios da Meditação, S. S. Dalai Lama, Âncora Editora, 2001
Tradução: Paulo Borges
Revisão: Conceição Gomes

Nota: Contrariamente ao pratisthitanirvana ou “nirvana estático” dos Arhat, no Pequeno Veículo, os Bodhisattvas e Budas plenamente iluminados fruem, pela sua compaixão, o “nirvana não estático” ou “nirvana onde não se entra definitivamente” (N.T.).

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