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O ponto de quietude

248881948_4249ac53cfQualquer criatura à face da terra parece saber como estar quieta e tranquila. Uma borboleta numa folha, um gato em frente de uma lareira. Mas os humanos estão constantemente em movimento. Parece que perdemos a habilidade de estarmos quietos, de simplesmente estarmos presentes na quietude que é a base da nossa existência.

O ponto de quietude está no coração do processo criativo. No Zen, acedemos a esse ponto através do Zazen. O ponto de quietude é como o olho de um furacão. Quieto, calmo, mesmo no meio do caos. Não é, como muitos acreditam, um vazio em que nos retiramos, fechando-nos ao mundo. Estar quieto significa esvaziarmo-nos do fluxo incessante de pensamentos e criar um estado de consciência aberto e receptivo. A quietude é muito natural e descomplicada. Não é de nenhuma forma esotérica. Contudo é incrivelmente profunda.

No Zazen praticamos largar mão dos pensamentos e do diálogo interno, trazendo a mente de volta à respiração. A respiração torna-se mais fácil e profunda, e a mente repousa naturalmente. A mente é como a superfície de um lago. Quando o vento sopra, a superfície é agitada. Então há ondas e a imagem do sol ou da lua é quebrada. Quando o vento se acalma, a superfície fica como vidro. A mente tranquila é como um espelho. Não processa, apenas reflecte. Quando há uma flor em frente, reflecte a flor. Quando a flor desaparece, a reflexão desaparece. A mente volta à superfície tranquila original. Uma mente quieta está desobstruída. Não se segura ou se agarra a nada. É livre a todo o momento, independentemente das circunstâncias.

O ponto de quietude permite-nos não sermos consumidos pela loucura que nos rodeia, não apenas em situações extremas, mas na nossa vida do dia-a-dia. Tanto da nossa cultura actual leva à agitação e, frequentemente, deixamo-nos levar por esse frenesim. Todos somos condicionados, do momento em que nascemos até ao momento em que morremos. Somos condicionados pelos nossos pais, professores, nação e cultura. Vivemos grande parte das nossas vidas como se não tivéssemos mais potencial do que o cão de Pavlov. Quando alguém toca uma sineta, ficamos todos excitados. Damos por nós contrafeitos a viver o guião que os outros escreveram para nós. Ou reagimos compulsivamente e repetidamente contra isso, ainda assim escravos do guião, mas de outra forma. Há uma alternativa, dada pelo ponto de quietude – a de realizar a nossa liberdade não condicionada.

O primeiro passo para aceder ao ponto de quietude é simplesmente acalmar. Estamos constantemente a falar para nós mesmos. Passamos o nosso tempo preocupados com o passado, que não existe – já aconteceu. Ou preocupados com o futuro. Que também não existe – ainda não aconteceu. O resultado é que perdemos a consciência do momento presente da nossa vida e quase não o sentimos passar. Comemos, mas não saboreamos, ouvimos, mas não escutamos, amamos, mas não sentimos. Passamos as nossas vidas perdidos na nossa cabeça.

Viver na tranquilidade do ponto de quietude significa estar no momento, que é sempre aqui e agora. É muito fácil dizer “estar aqui e agora”, mas é muito difícil estar realmente presente.

Para aceder ao ponto de quietude, temos de nos voltar para o interior. Temos de estar disponíveis para voltar ao momento, uma e outra vez, consciente e deliberadamente. Não é fácil. Experimenta o seguinte: Senta-te confortavelmente, fecha os olhos e relaxa. Durante quinze minutos, apenas ouve, sem mexer o corpo e a mente. Apenas ouve. Não te concentres em nenhum som, não sigas nenhuma sequência particular de sons. Deixa que todo o teu ser funcione como uma esfera aberta de escuta de 360 graus. Não processes o que ouves. Não sonhes acordado. Não adormeças. Durante quinze minutos, apenas escuta.

Muitos de nós, incluindo os praticantes mais experientes, vamos achar que é muito difícil simplesmente ouvir. Ouvimos sons e imediatamente os catalogamos, ou associamo-los com outra coisa, comparamo-los, analisamo-los, ou tentamos encontrar a origem deles. Rapidamente apenas ouvir torna-se aborrecido e as nossas mentes vagueiam. Não é fácil deixar que as coisas simplesmente sejam, e abandonar os nossos comentários recorrentes.

Na prática Zen, tocamos o ponto de quietude ao focar a mente, o que se constrói gradualmente ao cultivar a nossa concentração. Primeiro, contamos a respiração: inspirar, um, expirar, dois, etc. Ao chegar a dez, voltamos ao princípio. Quando percebemos que a mente vagueia, olhamos para o pensamento, tomamos consciência dele, deixamo-lo partir, recomeçamos a contagem no um. Aos poucos começamos a construir joriki, o poder da concentração. De cada vez que conscientemente deixamos partir um pensamento e voltamos a nossa atenção para a respiração, desenvolvemos a nossa habilidade de colocar a mente onde a queremos, quando queremos, durante o tempo que queremos. E isso é incrivelmente poderoso.

A forma humana é absolutamente magnífica quando vivida plenamente. Muitos de nós arrastam-se pela vida apenas com uma minúscula fracção do nosso potencial. Joriki abre gradualmente as nossas reservas físicas, mentais e emocionais e abre as nossas capacidades espirituais.

Uma das formas do nosso poder espiritual se começar a manifestar é através da emergência do aspecto intuitivo da consciência. Esta é uma das razões da ligação íntima do zen com a criatividade. A criatividade é também uma expressão do nosso lado intuitivo. Entrar em contacto com a nossa intuição ajuda-nos a entrar no fluxo da vida, num universo em estado constante de se tornar. Quando desenvolvemos a intuição, através da arte ou simplesmente nas actividades do dia-a-dia, sentimo-nos como uma parte deste continuum criativo.

A concentração focada num ponto único desenvolve a intuição. Tornamo-nos mais directamente conscientes do mundo. Percepcionamos de uma forma não claramente compreensível, mas que é muito precisa. Quando a totalidade da nossa mente está focada num único ponto, o seu poder desenvolve-se. Construir a concentração é uma disciplina como outra qualquer. Se queremos desenvolver a musculatura, levantamos pesos. Para tocar piano, repetimos o mesmo exercício vezes sem conta. É o mesmo com o movimento, com a arte. A prática repetitiva desenvolve a nossa capacidade e perícia. E com a meditação acontece o mesmo.

Contar a respiração e voltar quando nos distraímos não exige esforço. Aí estamos prontos para seguir simplesmente a respiração, para nos tornarmos íntimos do respirar. Ao ser apenas a respiração, a testemunha desaparece e apenas a respiração respira.

Nas nossas actividades do dia-a-dia, mesmo pequenos movimentos como o toque da roupa contra a pele são o suficiente para reafirmar o sentido de um eu físico. “Aqui estou, contido num saco de pele”. Mas quando começamos a meditar e paramos de nos agitar, esse feedback contínuo desaparece, e com ele o sentido de um eu distinto. Ao desenvolver esse poder de concentração, atingimos um ponto em que desenvolvemos uma falta de sensação do corpo durante longos períodos de meditação.

Esta experiência pode ser muito perturbadora para alguns. É semelhante ao que aconteceu nos anos 70 nas experiências de tanques de privação sensorial. Pessoas imersas em água à mesma temperatura do corpo perdiam o sentido de fronteiras físicas. Para muitos, isto era uma experiência intolerável.

Durante a meditação, quando nos aproximamos dessa quietude completa, involuntariamente a sabotamos. O corpo por vezes mexe-se ou torce-se para restabelecer esse sentido de solidez. Mas, quando nos familiarizamos com esta falta de sensação, podemos descontrairmo-nos nela. Quando o corpo repousa na quietude, os pensamentos abrandam. Quando os pensamentos finalmente desaparecem, o pensador desaparece. Pensamento e pensador são interdependentes, surgem mutuamente. Não pensamento, não pensador, chama-se a isto “o desaparecimento do corpo e do espírito”. Este é o samadhi absoluto a focagem da mente num ponto único. Na focagem não há observador. Não há percepção do tempo, eu, ou outro. Contudo, não podemos tabalhar com um computador ou conduzir um carro neste estado. temos de continuar até que este estado se manifeste gradualmente como samadhi em acção, ou seja, estamos aptos a funcionar em actividade mas de dentro de um lugar de quietude, de centragem. Quando o samadhi absoluto surge na nossa meditação, espalha-se no resto das nossas vidas, em tudo o que fazemos. É uma forma de estar. Todos os nossos sentidos se tornam abertos, alertas, libertos de tensão, receptivos, mas sem nos agarrar.

Ao trabalhar o samadhi não há esforço, nem intenção. É uma consciência de 360 graus; não tanto como a consciência de um caçador, que está muito focada e dirigida, mas como a consciência da caça – sem restrições.

do livro The Zen of Creativity de John Daido Loori
trad. Margarida Cardoso

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